Canaviais infestados por tiririca ou por corda-de-viola evidenciam o impacto que o descontrole das plantas daninhas pode causar na cana, tanto na produtividade quanto na colheita.  

Ainda assim, não é necessário manter a lavoura limpa durante todo o ciclo, pois existe uma janela específica em que o controle é determinante para o resultado.  Neste conteúdo, você vai entender essa janela, as principais espécies problemáticas e como montar a estratégia certa para cana-planta e cana-soca. 

Ficha rápida: controle de plantas daninhas no canavial 

Principais espécies-problema Tiririca, capim-colonião, capim-braquiária, corda-de-viola, guanxuma, caruru 
PCPI em cana-planta,  Em média, do 30º ao 100º dia após o plantio 
PCPI em cana-soca Primeiros meses após a brotação da soqueira, com variação conforme a época de corte 
Perda sem controle Até 80% da produtividade 
Impacto no custo As plantas daninhas podem elevar em até 30% o custo de produção (Embrapa) 
Papel da palhada Reduz a emergência de gramíneas e de folhas largas de sementes pequenas; efeito limitado sobre tiririca e corda-de-viola 
Exemplos de pré-emergentes Ametrina, diurom, tebutiurom e metribuzim (consultar registro no Agrofit) 
Exemplos de pós-emergentes Halossulfurom-metílico (tiririca), 2,4-D (folhas largas) e MSMA (consultar restrições em bula) 

Principais pontos 

  • O controle não precisa ser feito o ano todo: o esforço deve se concentrar no PCPI (período crítico de prevenção da interferência). 
  • Sem controle, a competição por água, luz e nutrientes pode reduzir a produtividade da cana em até 80%. 
  • A palhada da colheita mecanizada reduz a emergência de gramíneas e de parte das folhas largas de sementes pequenas, mas tem efeito limitado sobre a tiririca e a corda-de-viola. 
  • A tiririca e a corda-de-viola são pouco afetadas pela palhada e demandam atenção específica no manejo da cana-soca. 
  • Herbicidas pré-emergentes dependem de chuva ou irrigação para alcançar a camada superficial do solo. Sobre a palhada, é recomendável escolher produtos registrados para essa condição ou complementar o manejo com aplicações em pós-emergência. 

Por que as plantas daninhas são um dos maiores problemas do canavial 

As plantas daninhas competem intensamente por recursos vitais, como água, luz e nutrientes. Essa disputa é mais intensa no início do ciclo, quando a cana ainda não fechou as entrelinhas. 

Impacto na produtividade: o que a competição custa 

Em casos extremos, sem qualquer controle, a competição das plantas daninhas pode reduzir a produtividade da cana em até 80%.  

Essa interferência acontece principalmente por disputa de luz, água e nutrientes, e se concentra nos primeiros meses de cultivo e após os cortes, o período mais crítico do ciclo. 

Além da perda direta de produtividade, as daninhas dificultam a colheita mecanizada. Elas também podem contaminar a matéria-prima que chega à indústria.  

Segundo a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), as plantas daninhas podem elevar em até 30% o custo de produção da cana-de-açúcar, o que justifica a atenção dedicada a esse manejo. 

Principais espécies daninhas na cana-de-açúcar 

Algumas espécies merecem atenção redobrada por sua agressividade ou dificuldade de controle: 

  • Tiririca (Cyperus rotundus): uma das espécies mais problemáticas do canavial. Por se reproduzir principalmente por tubérculos subterrâneos, apresenta controle difícil e erradicação improvável, o que exige herbicidas com ação sobre essas estruturas. 
  • Capim-colonião (Megathyrsus maximus) e capim-braquiária (Urochloa decumbens): gramíneas agressivas, especialmente comuns em áreas de expansão da cana-de-açúcar sobre antigas pastagens. 
  • Corda-de-viola (Ipomoea spp.): trepadeira que se enrola nos colmos, dificulta a colheita mecanizada e tende a persistir mesmo em áreas com palhada. 
  • Guanxuma (Sida rhombifolia): folha larga de controle mais difícil em estádios avançados, com presença mais relevante em áreas sem cobertura de palhada. 
  • Caruru (Amaranthus spp.): folha larga de crescimento rápido e alta produção de sementes, com maior relevância na cana-planta e em áreas com pouca cobertura de palhada. 

Período crítico de prevenção da interferência 

Nem todo o ciclo da cana exige o mesmo nível de vigilância contra plantas daninhas. Existe uma janela específica em que o controle realmente faz diferença no resultado final da lavoura. É sobre essa janela que o produtor deve concentrar atenção e investimento. 

O que é o PCPI e como ele orienta o manejo 

O PCPI (período crítico de prevenção da interferência) é a janela do ciclo em que o controle de plantas daninhas é indispensável.  

Antes e depois desse período, a interferência das daninhas não costuma causar perda econômica significativa. Esse conceito orienta o planejamento do investimento em controle. 

Na cana-planta, estudos de referência (Rolim & Christoffoleti, 1982; Kuva et al., 2003) situam o PCPI, em média, entre o 30º e o 100º dia após o plantio, uma janela em que o controle é indispensável. Esses valores variam conforme o sistema de cultivo e o nível de perda tolerado. 

Na cana-soca, há menos estudos disponíveis. As estimativas indicam que o período crítico se concentra nos primeiros meses após a brotação da soqueira, com duração variável conforme a época de corte e as condições de umidade.   

Na prática, concentrar o controle dentro do PCPI é economicamente mais vantajoso do que manter o canavial limpo durante todo o ciclo. 

Como a competição muda conforme o estádio da cana 

Nos estádios iniciais, com a copa ainda pouco desenvolvida, a cana é muito suscetível à matocompetição. 

À medida que a lavoura se estabelece, geralmente após o fim do PCPI, o fechamento do dossel promove um sombreamento natural. Esse sombreamento já suprime boa parte das daninhas por conta própria. 

Depois desse fechamento, novas intervenções raramente se justificam economicamente. A exceção fica por conta das trepadeiras, como a corda-de-viola, que se desenvolvem sobre a cultura e podem prejudicar a colheita mecanizada mesmo em canaviais já estabelecidos. 

Corda-de-viola com flores roxas, planta daninha comum em canaviais

Controle de plantas daninhas em cana-planta 

O primeiro ciclo da lavoura é o momento em que o canavial está mais vulnerável à concorrência das daninhas, já que a cultura ainda não tem estrutura para sombrear o solo. 

Por isso, o manejo nessa fase combina práticas culturais e controle químico bem planejado, desde o preparo do solo até o pós-emergente. 

Manejo pré-plantio: incorporação e dessecação 

Na reforma do canavial, a dessecação elimina as plantas daninhas já emergidas e a soqueira antiga antes do preparo do solo. 

Em áreas infestadas por tiririca, o revolvimento do solo exige cuidado, já que a fragmentação dos tubérculos estimula novas brotações. O preparo contribui para reduzir a infestação quando expõe os tubérculos à desidratação no período seco ou quando é seguido de controle químico. 

Em sistemas conservacionistas, como o plantio direto e o cultivo mínimo, o menor revolvimento do solo é recomendável para preservar a estrutura do solo e reduzir a exposição de sementes de plantas daninhas à germinação. 

Herbicidas pré-emergentes: como e quando aplicar 

Os herbicidas pré-emergentes são aplicados antes da emergência das plantas daninhas. Conforme a recomendação de bula, a aplicação pode ocorrer em pré-emergência ou em pós-emergência inicial da cana.  

Entre os ingredientes ativos mais utilizados estão ametrina, diurom, tebutiurom e metribuzim. É recomendável verificar o registro vigente no Agrofit, sistema do MAPA (Ministério da Agricultura e Pecuária), para cada cultura e situação de uso. 

A umidade do solo é determinante para a ação desses produtos. A chuva ou a irrigação após a aplicação leva o herbicida para a camada superficial do solo, onde ele fica disponível para ser absorvido pelas plantas daninhas em germinação. Alguns ingredientes ativos toleram um período sem chuva após a aplicação, conforme indicado em bula, o que permite o uso na época seca. 

A presença de palhada também é um fator relevante, pois pode reter o herbicida antes que ele alcance o solo. 

Nesses casos, é recomendável escolher ingredientes ativos com registro e características adequadas para aplicação sobre palha, respeitando sempre a dose indicada em bula, ou complementar o manejo com um herbicida pós-emergente. 

Herbicidas pós-emergentes: complemento ao controle em pré-emergência 

Quando o controle pré-emergente não é suficiente, entram os herbicidas pós-emergentes.  

O MSMA (metanoarsonato ácido monossódico) tem histórico de uso no controle de tiririca e possui registro para a cultura. É recomendável observar as restrições da bula, que incluem o intervalo mínimo para o cultivo de outras culturas na área tratada. 

O halossulfurom-metílico é seletivo para a cana e tem ação direcionada a ciperáceas, como a tiririca, com resultados superiores quando aplicado nos estádios iniciais da planta daninha. Já o 2,4-D é indicado para folhas largas, como a corda-de-viola e outras dicotiledôneas. 

O momento de aplicação é determinante para o resultado. O ideal é aplicar com as plantas daninhas em estádios iniciais de desenvolvimento, conforme o estádio indicado na bula de cada produto para cada espécie-alvo. 

Controle de plantas daninhas em cana-soca 

Depois do primeiro corte, a dinâmica de manejo muda bastante. A touceira já está estabelecida e apresenta vantagem competitiva inicial sobre as plantas daninhas, e a palhada deixada pela colheita mecanizada passa a ser uma ferramenta central no controle das daninhas, reduzindo a necessidade de intervenções constantes. 

Diferenças do manejo em relação à cana-planta 

Na cana-soca, a rebrota da touceira começa antes das daninhas, o que já representa uma janela de vantagem competitiva para a cultura. Em áreas de colheita mecanizada sem queima, a camada de palhada deixada sobre o solo reduz a emergência de diversas espécies anuais, especialmente gramíneas, o que representa uma vantagem relevante em relação à cana-planta. 

A tiririca é uma exceção importante: a palhada reduz sua infestação apenas parcialmente, já que os tubérculos têm reservas para rebrotar e recompor a população após o corte. 

Por isso, na cana-soca, a intervenção costuma ser mais pontual do que na cana-planta, concentrada principalmente em focos de tiririca, corda-de-viola e gramíneas perenes. 

O papel da palhada no controle de daninhas 

Segundo estudo da Unesp (Universidade Estadual Paulista) publicado por Correia & Durigan (2004), coberturas de 10 t/ha a 15 t/ha de palha de cana reduziram a emergência de espécies como o capim-colchão (Digitaria horizontalis). 

A supressão ocorre principalmente por barreira física e redução da luz que chega ao solo, podendo haver também efeito alelopático. Espécies de sementes pequenas, como gramíneas anuais, estão entre as mais afetadas. 

Já espécies de sementes grandes, como a corda-de-viola, e espécies com estruturas vegetativas de reprodução, como a tiririca, são menos afetadas e conseguem emergir mesmo sob uma camada espessa de palhada. 

Por isso, manter a palhada intacta é uma prática importante: evitar o revolvimento do solo na cana-soca preserva essa barreira, enquanto perturbar a palhada abre espaço para novos fluxos de emergência. 

Manter o canavial livre de plantas daninhas não significa manter a área limpa o ano inteiro. Significa concentrar o esforço de controle no período crítico de interferência, respeitando as diferenças entre cana-planta e cana-soca.  

Combinar herbicidas pré e pós-emergentes com o uso estratégico da palhada da colheita mecanizada é o caminho para proteger a produtividade da cana contra a interferência das plantas daninhas, sem elevar desnecessariamente o custo de produção. 

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Perguntas frequentes 

1. É necessário manter o canavial livre de plantas daninhas durante todo o ciclo? 

Não. O controle deve se concentrar no período crítico de prevenção da interferência (PCPI), que na cana-planta vai, em média, do 30º ao 100º dia após o plantio, e na cana-soca se concentra nos primeiros meses após a brotação da soqueira, com variação conforme a época de corte. Fora dessa janela, a interferência costuma não causar perda econômica significativa. 

2. A palhada da colheita mecanizada substitui o uso de herbicida? 

A palhada reduz a emergência de diversas espécies anuais de sementes pequenas, especialmente gramíneas, mas tem efeito limitado sobre a tiririca, que se reproduz por tubérculos, e sobre a corda-de-viola, que emerge mesmo sob camadas espessas de palha. 

3. Por que a tiririca é tão difícil de controlar mesmo com uso de palhada? 

A tiririca se reproduz principalmente por tubérculos subterrâneos, cujas reservas permitem que as brotações atravessem a camada de palha. Por isso, a barreira física que reduz a emergência de espécies de sementes pequenas tem efeito apenas parcial sobre ela. 

4. Herbicida pré-emergente funciona em qualquer condição de solo? 

Não. O herbicida precisa de chuva ou irrigação para alcançar a camada superficial do solo, onde as plantas daninhas germinam. Alguns produtos toleram um período seco após a aplicação, conforme a bula. Sobre palhada espessa, parte do herbicida pode ficar retida antes de chegar ao solo. Por isso, é recomendável escolher produtos registrados para essa condição ou complementar o manejo com um pós-emergente. 

5. Qual o momento certo para aplicar o herbicida pós-emergente? 

O ideal é aplicar com as plantas daninhas em estádios iniciais de desenvolvimento, conforme o estádio indicado na bula de cada produto para gramíneas e folhas largas, como a corda-de-viola.